Há várias universidades nas quais se estabelece que quem não aceita ser praxado não pode usar traje e é excluído de "tudo".
Há várias universidades nas quais se estabelece que quem não aceita ser praxado não pode usar traje e é excluído de "tudo".DR

"A praxe é uma coisa muito estranha"

Que é isto da praxe, donde vem e como é possível que, com pelo menos uma morte e várias denúncias de abusos criminosos no palmarés, continue, com cada vez mais manifestações e entusiasmo, a ponto de haver professores a queixarem-se de ser praxados e de ter medo dos praxantes? Quando se discute a hipótese de as seis mortes de alunos da Universidade Lusófona no Meco terem sucedido num contexto de práticas "praxísticas", o DN tenta perceber.
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"Quando entras nem és caloiro, és verme." Maria Manuel Alves, 24 anos, acabou em 2011 o curso na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa mas ainda não se esqueceu dos hematomas com que ficou de horas a fazer "granadas". "O que é? É mandares-te para o chão e tapares a cabeça com as mãos quando eles gritam granada. Ainda tentei proteger-me mandando primeiro os joelhos, mas fiquei bastante magoada." Até rebentou com um relógio na brincadeira. "A minha mãe via--me chegar toda pintada (ainda tentava na estação do Campo Grande tirar aquilo, mas não saía tudo), magoada, chateada, e perguntava--me: "Porque é que te metes nisso?""

Porquê, de facto? Maria Manuel hesita, sorri. "Pois. É um bocado psicológico. Não me perguntaram sequer se queria entrar. Entras no primeiro ano, és caloira, estás na praxe. E eu era muito timidita, aquele tipo de miúda que fez o secundário com 18 e tinha a ideia de que haveria vantagens do ponto de vista académico, supostamente os padrinhos - cada caloiro tem um padrinho ou uma madrinha - facilitavam apontamentos e testes anteriores e se não entrássemos na praxe não teríamos acesso a essas coisas (a ironia é que depois percebi que estava tudo nos computadores da escola). Decidi por isso não me declarar contra. Logo no primeiro dia cheguei atrasada por viver no Montijo e tive de ir explicar a situação à minha madrinha e ela percebeu porque também vivia na Margem Sul e deu-me autorização para chegar mais tarde."

Praxe com horário? Ri: “Sim, até parecia que ia para as aulas. Isto passava-se uma semana antes do início das aulas, na semana da praxe. Era suposto andarmos naquilo das oito da manhã até não sei que horas.”

Natércia Luís, 37 anos, hoje professora de educação física, confrontou-se com exigência semelhante na Escola Superior de Educação de Castelo Branco quando entrou no primeiro ano, em 1998. “Eu era atleta e tinha treinos e eles convocavam as praxes para as horas dos treinos. Claro que não punha lá os pés. Uma tipa veio ter comigo a perguntar porque eu não tinha aparecido e eu disse-lhe que não tinha grande interesse.  Ela respondeu: ‘Então vai ser expulsa das praxes.’ Isto num tom de arrogância incrível -- o que mais me perturbava em tudo aquilo era o tom agressivo e intimidatório. Perguntei: ‘Mas vai-me expulsar da escola?’ E ela disse que para não ser expulsa podia apresentar uma justificação do clube por causa dos treinos. Fiquei parva e a coisa acabou logo aí. Fui a única da minha turma a declarar-se anti-praxe. Comentávamos entre nós, havia quem quisesse ser anti-praxe mas acabaram por desistir, porque perdiam coisas que eles achavam interessantes: deixavam de poder trajar, de poder participar nas cerimónias, não lhes emprestavam apontamentos, ninguém dos mais velhos lhes falaria.”

Nada que Natércia tenha lamentado: “Olharam-me de alto a baixo, mandavam bocas mas nunca passou disso. Todas estas coisas se passavam  dentro da escola e parecia muito natural na altura. Lembro-me de ver colegas na aula com um paralelo [pedra da estrada] amarrado ao sapato, tinham de andar o dia todo com aquilo, uma coisa horrível.” Mesmo assim, apesar de assegurar que não é de se ficar, Natércia reconhece que no início ainda participou: “Eram aquelas coisas tipo ‘caloira apresente-se, ponha-se de joelhos’, andar a rastejar em jardins e corredores. Pensei: ‘Deixa-me cá experimentar, ver se é divertido.’ Não quis ser desagradável, olhei para os outros e vi-os todos a porem-se de joelhos e pus-me também. Senti-me um bocado intimidada.”

“Olhos no chão, caloiro”

 Dez anos separam as entradas de Natércia e Maria Manuel no ensino superior, e as escolas são distintas. Será isso que explica o facto de numa não haver uma semana específica para a praxe, e na outra sim. Uma semana que começava com a imposição de compra de um “kit caloiro” (que incluía um Tshirt e mais alguns objetos que Maria Manuel não recorda bem) e finda a qual “o verme” passava a caloiro. “Dizem que aquilo é para integrar. Não me senti integrada nem conheci ninguém, porque é: ‘Olhos no chão, caloiro.’”

As “atividades” decorriam num parque de estacionamento em frente à escola, mas a gritaria era tal que se ouvia lá dentro. “Uma vez veio uma professora cá fora dizer para ‘haver alguma tolerância com os caloiros.’” A agora enfermeira ri. “É incrível, não é? Tudo aquilo que se passa... Os professores e a faculdade não podem dizer que não têm conhecimento. E mesmo dentro da faculdade permitiam, porque no dia da inscrição estávamos a fazer granadas ao pé da secretaria e veio alguém de lá dizer que estávamos a fazer muito barulho.”

Certo; mas se é assim tão obviamente mau, porque é que os estudantes o suportam? “A maioria das pessoas aderem, porque a informação que é veiculada e que quem não for está excluído de tudo. Mas muita gente não sabe ao que vai. Claro que há quem ache piada, se calhar por falta de capacidade crítica. É uma coisa muito estranha, realmente. Aquilo não é nada construtivo, é estúpido porque há abuso físico e psicológico. Acho que quem faz aquilo são pessoas com problemas na vida.”

Quando passou para o segundo ano, Maria Manuel recusou praxar. “Ainda tive uma afilhada mas só lhe passei apontamentos, não fiz mais nada. E nunca trajei, sempre achei uma idiotia.” A experiência criou-lhe anticorpos: “Há um tempo tomei uma posição qualquer contra a praxe, já não sei bem em que circunstâncias. E acho que deviam ser proibidas, não fazem sentido nenhum. Se querem integrar façam, sei lá, jogos que tenham a ver com os cursos, ou assim. Pode ser totó, mas as pessoas para se relacionar têm de conversar. Não é a andar a ouvir gritos com os olhos no chão e a fazer coisas estúpidas e humilhantes.”

Este ex-aluno da Universidade Portucalense (Porto), agora com 34 anos, que entrou no curso de informática de gestão em 2000 e prefere que o nome não seja citado – chamemos-lhe então João – tem uma visão diferente. Não só garante que não conhecia ninguém, por vir das ilhas, e ao fim de uma semana de praxe “já me dava com meia faculdade”, como frisa o caráter voluntário e lúdico do ritual. “Quem quer vir vem, ninguém é discriminado por não ir. A humilhação só acontece se se estiver a ser obrigado a fazer alguma coisa. E perguntamos sempre se há algum problema físico ou psicológico. Queremos evitar problemas porque sabemos que se houver algum vai ser usado contra a praxe. Tínhamos casos de caloiros com problemas cardíacos, não íamos pô-los a correr e a fazer flexões. A praxe não tem o objetivo de agredir.”

João, que afirma ter “uma grande noção da história da praxe” e afirma que “dantes era muito mais violenta”, fez “a escada toda”: “Passei todos os níveis da hierarquia. Fui desde caloiro até fazer parte do Conselho de Veteranos [a “autoridade máxima” da praxe].” Enquanto “doutor” ou praxador, garante, “nunca deixei ninguém tocar nos caloiros” e assegura mesmo que um dos motivos pelos quais se integrou na comissão de festas foi zelar para que não houvesse abusos – subentendendo que abusos não eram raros (o que aliás se depreende da leitura de códigos de praxe de várias universidades, nomeadamente a de Coimbra e a do Porto, em que se prescreve o “rapanço” – tesouradas no cabelo --, a unhada – bater nas unhas com uma colher pau ou sapato – e até a possibilidade de os caloiros desempenharem “serviços domésticos” aos doutores, com a particularidade de raparigas só poderem fazê-lo a mulheres).

“As mulheres com o choque é vulgar chorarem”

Afinal, o que João descreve como a sua experiência de ser praxado acaba por corroborar os relatos de Natércia e Maria Manuel: “Cantávamos muito. Fazíamos algumas brincadeiras, em que nos mandavam fazer coisas, recados, mas o que mais fazíamos era cantar  músicas para incutir o orgulho da faculdade, do curso. Nunca houve aquela coisa de pintar caloiros, há pessoas alérgicas e deve-se evitar. E a parte normal de pormo-nos de quatro, fazer flexões quando fazíamos coisas mal… Andar pelas ruas do Porto com latas amarradas aos pés… Casos de má praxe foram resolvidos.” Por exemplo? “Aconteceu comigo um doutor atirar balões de água aos caloiros. Não achei muita graça. Mas ele foi repreendido por um veterano à minha frente.”

João confessa até que “quando fui para a praxe ia um pouco receoso. É normal, aliás as mulheres com o choque é vulgar chorarem. Às vezes há situações agressivas.” Suspira. “Acho que a praxe é muitas vezes mal entendida. Vê-se isso quando levamos os caloiros para a rua, as pessoas mais velhas não gostam da linguagem ordinária, acham que os miúdos estão a ser forçados. Mas a mim serviu para me desinibir em muitos aspetos. Era muito envergonhado e recatado e achei libertador estar a fazer e dizer certas coisas. Fiquei muito mais sociável. Aliás, tínhamos lá um rapaz que tinha tido uma depressão muito grande, e a praxe fez-lhe muito bem. Claro que há pessoas a quem não fez bem e não a vejo como a integração ideal.” Dizendo-se “de esquerda”, ressalva: “Não vou dizer que a praxe é uma coisa revolucionária, longe disso. E estou de acordo em que se debata, mas sem histerias. E agora, com isto do Meco, está-se a assistir a uma histeria completa.”

Igualmente um estudioso da praxe, Luís Pedro Mateus, 26 anos, a acabar o curso de Engenharia na Faculdade do mesmo nome da Universidade do Porto, tem a ideia oposta à de João quanto à evolução dos rituais. Acha que são muito mais violentos agora que há décadas. Mais: acha que muito do que se apelida e defende como praxe não o é. “Quando aos 17 anos, em 2004, entrei no Instituto Superior de Engenharia, de onde me transferi mais tarde para a faculdade onde estou agora, já tinha uma ideia do que era a praxe e a tradição académica, das histórias que ouvia ao meu avô e aos meus pais. Não havia esta coisa de pintar e sujar caloiros, nem cenas de cariz sexual nem andar em rebanho na rua. De tal modo que quando a minha irmã entrou para a faculdade, antes de mim, e começou a narrar o que lá se passava os meus pais ficaram espantadíssimos. Aquilo era tudo alienígena para eles, que tinham vivido o ressurgimento da praxe, nos anos oitenta, na Faculdade de Letras do Porto.”

Luís Pedro, que criou um blogue sobre praxe e tradição académica, entretanto transformado num site (www.praxeporto.com), dedicou-se não só a ler mas também a buscar história viva. “Encontrei pessoas dos anos 80 e 90 que me contaram que o chamado ‘gozo ao caloiro’ não tinha hora nem sítio marcado e constava mais de piadas como dar indicações erradas ou pedir a um caloiro que fizesse uma dissertação para os doutores sobre a importância do escaravelho na cultura da batata. E asseguravam-me que os caloiros resistiam.” Suspira. “Se calhar a minha geração não questiona tanto, entrou numa zona de conforto.”

Membro da Juventude Popular, o que será, adianta, em parte responsável por andar há dez anos para concluir um curso de três,  Luís Pedro tenta proceder a uma difícil equação, a de defender a tradição académica rejeitando a maioria das coisas que hoje em dia são com ela identificadas por quem a defende com unhas e dentes. “Tenho um amigo que acha que a alteração a que se assistiu no final dos anos 90 tem a ver com duas coisas: o surgir das universidades privadas – já reparou que todos os casos graves que surgem têm a ver com privadas? – e o Big Brother, com aquela espécie de treino militar e a banalização de uma certa ordinarice.”

O facto, porém, de os códigos de praxe de Coimbra e Porto (os mais antigos, sendo o segundo uma cópia do primeiro) instituírem a violência e o abuso, além de glorificarem a embriaguez, de mortes no contexto de praxe académica remontarem ao século XVIII (D. João V ordenou o fim da praxe por esse motivo) e de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão terem, no século XIX, assinado um protesto anti-praxe, descrevendo o “canelão”, que constava de um costume coimbrão em que os caloiros eram agredidos à canelada pelos mais velhos à entrada da Universidade, desmente a ideia de uma “tradição académica” de punhos de renda e devotada à lisura.

Luís Pedro nada disso desconhece. Mas não desiste de defender os princípios de algo que no seu entender é nobre e está a ser ultrajado. “Irrita-me ser a favor de uma tradição e haver tão pouca gente a defendê-la. Há muita gente que critica excessos para dentro mas para fora defende o silêncio, porque acham que se falarem vão enfraquecer a instituição praxe. Há um fundamentalismo nas pessoas que aparecem a defender isto, não querem pôr nada em causa.”

A existência de códigos de praxe, como é o caso da Escola de Veterinária da Universidade de Lisboa (de 2012) que prevê que alguém que não queira ser “praxado” tenha de apresentar “um requerimento” para tal ao conselho de veteranos deixa-o a espumar, como o facto de na maioria das universidades se dizer aos caloiros que se rejeitarem ser “praxados estão excluídos de tudo e não podem sequer usar o traje. “É só absurdidades. A praxe não se reduz à interação entre estudantes a pretexto de hierarquia. E não está codificado na Universidade do Porto que se não se for praxado não se pode usar traje. O que o Código diz é que estar na praxe é estar trajado. E essa atitude tem feito muita gente afastar-se. Gostariam de trajar, etc, mas não estão para aturar o resto.”

O próprio, que acha “ridícula e um atentado a idade dos dux [chefes supremos da praxe]” das universidades do Porto e Coimbra  (“O do Porto podia ser quase meu avô, já está reformado e ainda se matricula na Universidade, o que é aquilo?”), afastou-se da organização da praxe na sua faculdade. “Tentei fazer alguma coisa mas fiquei desencorajado. Havia pessoas que achavam que mandavam, que estavam iluminadas e tinham um ascendente sobre os colegas. Há um fundamentalismo, uma indisposição para admitir os erros, para debater abertamente. Entra-se naquela atitude ‘isto é assim porque é assim.’”

O avesso absoluto, afinal, do que é suposto ser o espírito académico. De tal modo que Luís Pedro não despede a possibilidade de o ocorrido no Meco ser mesmo um episódio horrível de algo que já ninguém sabe o que é nem sequer o que é suposto ser. “Acho que as associações académicas deveriam promover a investigação da tradição académica e promover o esclarecimento.  Deveriam criar-se regras de comportamento. Não chega dizer que humilhação e violência física não são aceitáveis – é preciso ser muito mais específico.” A ser assim, será preciso reescrever grande parte do código da praxe de Coimbra, o mais antigo, e aquele onde todos os outros bebem. Se é que tem emenda.

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O Leopardo da praxe
Diário de Notícias
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